Arrumar a mala e ir pra lugar qualquer
Ou não arrumar mala nenhuma, partir com o trapo do corpo
e o trapo de dentro do corpo.
Arrastar a moléstia para outras pessoas
E adoecê-las com isso ao fim do dia, curando novas memórias.
Pegar uma condução para a estrada do nada,
que não chega a lugar algum,
que apenas arrasta os trapos da alma e assim finge-se ter alma.
Preciso sentar-me no banco do trem
E ver as árvores passarem, assim como passa também a vida
E sentir, ao observar o mundo do meu ponto relativo,
Que as coisas do outro lado da janela se movem
E nada é estático.
Mesmo que tudo isso seja uma mentira,
que todas as coisas continuem no mesmo lugar
E o que mudou é apenas o meu ponto de referência.
A loucura é a expressão dos vivos.
sábado, abril 28, 2012
quarta-feira, abril 11, 2012
Sentido é não ter sentido
I.
Fecho os olhos. Amo-o e fito-o vagarosamente em meu palco memorial,
Cada detalhe, os traços bêbedos recordando lugares desusados de mim.
Fito-o sem pressa, porque não quero perder nenhum momento,
nenhum sorriso, nenhuma parte sem graça em uma metade qualquer.
E não tenho vergonha de amá-lo assim preguiçosamente,
porque logo que eu abrir os olhos
Ele estará em minha frente, e todos os traços que eu desenhei
Poderei admirá-los ainda sem pressa,
com os olhos vagarosamente dormindo
Perdendo-se nos rumores da malha.
Ao lado dele quero esticar o transcendente e nunca mais perder a textura das mãos
Entrelaçar as mãos e caminhar em vários lugares ao mesmo tempo
E, gaciosamente, exceder os limites do epaço-tempo
Ser feliz por estar ali e não por planejar onde eu deveria estar;
Por existir em plenitude em qualquer ponto tortuoso.
Entrelaçando as mãos quero que as coisas existam e façam sentido
Mesmo sem haver sentido real algum.
Quero que o mundo seja o Mundo e seja belo por isso,
sem precisar recorrer à todas as Leis para ter sentido.
Quero admirar o rio e sentir que ao vê-lo passar
passa também toda a arrogância,
a ignorância dessa moléstia que eu fui em noites terríveis.
Ora, já não busco conhecer profundamente o belo,
mas saber observá-lo onde quer que ele esteja;
Já não procuro, porque está em todo lugar.
II.
Já desamei coisas e sensações outrora. Mas é porque desamarrei.
A vida não tinha sido tão sincera comigo, fitado também os meus traços
Só pra ver o que me cabia melhor.
A vida tinha brincado de me dar vida,
Sete, oito, nove, só para que se pudesse morrer e viver de novo.
Agora talvez eu não tenha mais tantas vidas,
Mas tenho em mim a vontade de ter alguma,
e isso é algo que se constrói e dá lugar aos corpos empilhados do passado.
Não mudei, ainda sou eu. Mas sou eu de um jeito diferente,
Sou eu na realidade e sou eu em alguns sonhos.
Sou um cansaço estranho, mas também uma outra forma de se acordar todos os dias.
É bom e é ruim. Não há paixão sem delinear traços egoístas,
que só existem na vida empilhada que já foi.
Não tenho tido tempo de conversar muito.
Não porque o tempo me falta, mas porque eu faltei ao tempo.
Eu tive pressa, pulei o rio para o lado de nada
E perdi toda a graciosidade de como é atravessá-lo vagarosamente,
sentindo a água límpida amortecendo a minha celeridade.
Cheguei ao mundo onde tudo é alguma coisa,
e por isso nenhuma delas tem alma;
Porque estar vivo é um processo,
de caminhar no meio da estrada de nada,
onde o significado está na textura de dentro
No róseo forte pintado na parede do outro lado da pele,
de amar a tudo o que está em Si porque para isso não inventaram nomes.
Talvez chama-se arte.
(Ah! Naqueles dias engoli o outro lado do rio,
e fui feliz por umas duas horas.
Mas depois, ser feliz custou tempo
E fui infeliz por não ter tido tempo de ser feliz).
O amor não agrega sentido às coisas.
Amar uma única coisa e por isso todas as demais
É injusto com a vida, com toda a Natureza.
O amor simplesmente torna os sentidos aguçados às outras paixões,
Mas no fundo, quem ama um, ama o Universo todo.
E é assim que dois torna-se impiedosamente mais que um.
E a única condição disso é que não tenha condição alguma,
Que não faça sentido em nenhuma sociedade diminuta,
No incrível Sistema osquestrado por ninguém.
Fecho os olhos. Amo-o e fito-o vagarosamente em meu palco memorial,
Cada detalhe, os traços bêbedos recordando lugares desusados de mim.
Fito-o sem pressa, porque não quero perder nenhum momento,
nenhum sorriso, nenhuma parte sem graça em uma metade qualquer.
E não tenho vergonha de amá-lo assim preguiçosamente,
porque logo que eu abrir os olhos
Ele estará em minha frente, e todos os traços que eu desenhei
Poderei admirá-los ainda sem pressa,
com os olhos vagarosamente dormindo
Perdendo-se nos rumores da malha.
Ao lado dele quero esticar o transcendente e nunca mais perder a textura das mãos
Entrelaçar as mãos e caminhar em vários lugares ao mesmo tempo
E, gaciosamente, exceder os limites do epaço-tempo
Ser feliz por estar ali e não por planejar onde eu deveria estar;
Por existir em plenitude em qualquer ponto tortuoso.
Entrelaçando as mãos quero que as coisas existam e façam sentido
Mesmo sem haver sentido real algum.
Quero que o mundo seja o Mundo e seja belo por isso,
sem precisar recorrer à todas as Leis para ter sentido.
Quero admirar o rio e sentir que ao vê-lo passar
passa também toda a arrogância,
a ignorância dessa moléstia que eu fui em noites terríveis.
Ora, já não busco conhecer profundamente o belo,
mas saber observá-lo onde quer que ele esteja;
Já não procuro, porque está em todo lugar.
II.
Já desamei coisas e sensações outrora. Mas é porque desamarrei.
A vida não tinha sido tão sincera comigo, fitado também os meus traços
Só pra ver o que me cabia melhor.
A vida tinha brincado de me dar vida,
Sete, oito, nove, só para que se pudesse morrer e viver de novo.
Agora talvez eu não tenha mais tantas vidas,
Mas tenho em mim a vontade de ter alguma,
e isso é algo que se constrói e dá lugar aos corpos empilhados do passado.
Não mudei, ainda sou eu. Mas sou eu de um jeito diferente,
Sou eu na realidade e sou eu em alguns sonhos.
Sou um cansaço estranho, mas também uma outra forma de se acordar todos os dias.
É bom e é ruim. Não há paixão sem delinear traços egoístas,
que só existem na vida empilhada que já foi.
Não tenho tido tempo de conversar muito.
Não porque o tempo me falta, mas porque eu faltei ao tempo.
Eu tive pressa, pulei o rio para o lado de nada
E perdi toda a graciosidade de como é atravessá-lo vagarosamente,
sentindo a água límpida amortecendo a minha celeridade.
Cheguei ao mundo onde tudo é alguma coisa,
e por isso nenhuma delas tem alma;
Porque estar vivo é um processo,
de caminhar no meio da estrada de nada,
onde o significado está na textura de dentro
No róseo forte pintado na parede do outro lado da pele,
de amar a tudo o que está em Si porque para isso não inventaram nomes.
Talvez chama-se arte.
(Ah! Naqueles dias engoli o outro lado do rio,
e fui feliz por umas duas horas.
Mas depois, ser feliz custou tempo
E fui infeliz por não ter tido tempo de ser feliz).
O amor não agrega sentido às coisas.
Amar uma única coisa e por isso todas as demais
É injusto com a vida, com toda a Natureza.
O amor simplesmente torna os sentidos aguçados às outras paixões,
Mas no fundo, quem ama um, ama o Universo todo.
E é assim que dois torna-se impiedosamente mais que um.
E a única condição disso é que não tenha condição alguma,
Que não faça sentido em nenhuma sociedade diminuta,
No incrível Sistema osquestrado por ninguém.
quarta-feira, novembro 09, 2011
Versos não-íntimos
Deixei uma perna e esqueci que ainda tinha a outra.
Oras, acabaram-se as desculpas -
terei que mover-me, mesmo que tortuosamente.
Mas hoje poderia esperar o trem sem pressa.
Somente esperar, porque não iria a lugar algum.
E ainda sem pressa, acabaram-se os versos,
e tudo que ficou foi um vento bêbedo em meu ouvido
e um mistério do outro lado da máscara.
Versos íntimos, íntimos versos soam na noite.
Mas, íntimos de quem?
Enquanto os olho discretamente, eles me lêem.
O verso preocupado em entender,
e eu procurando sentí-lo.
Ah, versos não-íntimos!
Deixou o peso do Mundo cair sobre mim;
Dormir? Não. Vou contar as horas para não notar
a passagem delas gozarem o meu senso.
E no fim do verso, eu não sei. Melhor assim.
Pior seria ter certeza. Aí não haveria mais horas pra contar,
Não haveria mais como escandalizar a intimidade dos versos,
Nem poderia rir-me dos burros de carga que carregam
todas aquelas enciclopédias - para que no fim do dia
se possa dizer que sabe das cousas.
A noite passa e eu ainda me amorteço com a temperatura sóbria.
E prossigo na espera pela intimidade dos versos não-íntimos.
Criei um laço para acomodá-los, mas temo que na alma terrível
das letras e dos sentidos,
vire nó .
Oras, acabaram-se as desculpas -
terei que mover-me, mesmo que tortuosamente.
Mas hoje poderia esperar o trem sem pressa.
Somente esperar, porque não iria a lugar algum.
E ainda sem pressa, acabaram-se os versos,
e tudo que ficou foi um vento bêbedo em meu ouvido
e um mistério do outro lado da máscara.
Versos íntimos, íntimos versos soam na noite.
Mas, íntimos de quem?
Enquanto os olho discretamente, eles me lêem.
O verso preocupado em entender,
e eu procurando sentí-lo.
Ah, versos não-íntimos!
Deixou o peso do Mundo cair sobre mim;
Dormir? Não. Vou contar as horas para não notar
a passagem delas gozarem o meu senso.
E no fim do verso, eu não sei. Melhor assim.
Pior seria ter certeza. Aí não haveria mais horas pra contar,
Não haveria mais como escandalizar a intimidade dos versos,
Nem poderia rir-me dos burros de carga que carregam
todas aquelas enciclopédias - para que no fim do dia
se possa dizer que sabe das cousas.
A noite passa e eu ainda me amorteço com a temperatura sóbria.
E prossigo na espera pela intimidade dos versos não-íntimos.
Criei um laço para acomodá-los, mas temo que na alma terrível
das letras e dos sentidos,
vire nó .
domingo, outubro 23, 2011
Que é o amor?
O amor quando partido ao meio é um,
Quando partido pra sempre, é vários,
Quando memória, é o Universo todo.
E mais nada sei sobre isso.
Acorda-se no dia seguinte porque o amor
anterior não foi compreendido.
Dorme-se profundamente porque, ao fim do dia,
o amor é um cansaço em estado de latência.
O amor quando partido ao meio é um,
Quando partido pra sempre, é vários,
Quando memória, é o Universo todo.
E mais nada sei sobre isso.
Acorda-se no dia seguinte porque o amor
anterior não foi compreendido.
Dorme-se profundamente porque, ao fim do dia,
o amor é um cansaço em estado de latência.
quarta-feira, setembro 14, 2011
Conversam o Louco e a Loucura
O Louco:
"Uma porta se abre,
e o corpo enfermo fecha.
São janelas da alma que murmuram algo
pouco expressivo
E põem-se a mostrar uma fresta.
Mas de minúcias já estamos enebriados,
Queremos as persianas engolindo o Sol,
e queremos o Sol engolindo as nossas
sombras.
Tem dias que menos é mais
E fraqueza é implorar ao Sol
para cobrir os buracos dos olhos,
para desesperadamente evidenciar alguma coisa
de alguma fresta
perdida em Si".
A loucura:
"Mas diga-me, delírio, quantas palavras são
necessárias para compor um verso?
Dai-me as tuas frestas que até eu,
completamente inútil e vil,
apontarei algo que nem o Sol
e coisa alguma,
somente os teus olhos enfermos e esburacados,
alcançam:
Teu próprio exército.
E, inalcançavel que são,
Apenas os teus olhos secos e moribundos
poderão combatê-lo.
Antes de pretender conquistar o Mundo
Vença a ti mesmo".
Assim falou a loucura. E o louco não entendeu. O louco e a loucura não se entenderam.
"Uma porta se abre,
e o corpo enfermo fecha.
São janelas da alma que murmuram algo
pouco expressivo
E põem-se a mostrar uma fresta.
Mas de minúcias já estamos enebriados,
Queremos as persianas engolindo o Sol,
e queremos o Sol engolindo as nossas
sombras.
Tem dias que menos é mais
E fraqueza é implorar ao Sol
para cobrir os buracos dos olhos,
para desesperadamente evidenciar alguma coisa
de alguma fresta
perdida em Si".
A loucura:
"Mas diga-me, delírio, quantas palavras são
necessárias para compor um verso?
Dai-me as tuas frestas que até eu,
completamente inútil e vil,
apontarei algo que nem o Sol
e coisa alguma,
somente os teus olhos enfermos e esburacados,
alcançam:
Teu próprio exército.
E, inalcançavel que são,
Apenas os teus olhos secos e moribundos
poderão combatê-lo.
Antes de pretender conquistar o Mundo
Vença a ti mesmo".
Assim falou a loucura. E o louco não entendeu. O louco e a loucura não se entenderam.
domingo, julho 31, 2011
Eu vejo, desta janela escura, o sonho dos outros esfalecerem-se em minha frente. Vejo, sinto pelos outros. E pergunto o que há de errado comigo em amar tanto todas as coisas. Claro, sem puritanismos: quando ama-se, odeia-se também. Mas prefiro falar de amor ao ódio.
Ora, por quê vira-te assim? Não costumo falar de amor, porque o amor não fala de mim. Mas venho tentado compreender essa relação simbiótica entre meus olhos e a essência de tudo. Amo tanto a vida, sinto tanto as coisas, que há um pesar constante dentro de mim. Um cansaço inerente, um tombo na alma, que apesar de toda a minha ânsia frenética, há sempre uma preguiça de Ser. E às vezes, paradoxalmente, por amar tanto tudo, não quero acordar pela manhã, quero permanecer estática em um mundo calmo do outro lado de mim. E às vezes, ainda, quero ficar em silêncio e ver se assim me desuno da Natureza. Mas sempre tenho que levantar da cama, e quando expiro, já me entreguei à vida, e a Natureza colou-se em mim com mais feitio.
Eu vejo, desta janela escura, a morte dos sonhos dos outros. Eu observo o cadáver que ficou em cada um, e pergunto-me onde estão os meus próprios cadáveres. Olho pra dentro, da janela escura da alma, e encontro tudo aquilo que eu amei em outra vida. Porque o amor pelas coisas, com o passar e o pesar do tempo, transforma-as em defuntos, apenas pra organizar a entropia. É um amor em estado de latência, de potência, uma mola comprimida, pra caber mais amor. São cadáveres empilhados pra dar lugar a novos cadáveres. Porque o amor é assim, cria e descria, dá e tira. E de um jeito engraçado temos que lidar com isso.
E quando dou por mim, já senti tudo nas mãos e também já ficaram vazias. Já senti a areia escorrendo por entre os dedos, sobrando apenas o meu calor. Já senti a respiração partindo, e o ar de dentro sendo insuficiente. Mas também, logo o meu calor transforma-se em vida, e a minha respiração falha em fonte. Logo as minhas mãos preenchem-se novamente de idéias, o dinamismo profundo de amar.
Rio-me e sei que às vezes choro. Mas se é assim, é porque ainda não presenciei a morte dos meus sonhos. É porque, ao ver pela janela escura, defronte da luz um pouco mais adiante, sei que talvez um dia eu seja testemunha deste assassinato - mas ainda a vida me é uma quimera por essência.
Ora, por quê vira-te assim? Não costumo falar de amor, porque o amor não fala de mim. Mas venho tentado compreender essa relação simbiótica entre meus olhos e a essência de tudo. Amo tanto a vida, sinto tanto as coisas, que há um pesar constante dentro de mim. Um cansaço inerente, um tombo na alma, que apesar de toda a minha ânsia frenética, há sempre uma preguiça de Ser. E às vezes, paradoxalmente, por amar tanto tudo, não quero acordar pela manhã, quero permanecer estática em um mundo calmo do outro lado de mim. E às vezes, ainda, quero ficar em silêncio e ver se assim me desuno da Natureza. Mas sempre tenho que levantar da cama, e quando expiro, já me entreguei à vida, e a Natureza colou-se em mim com mais feitio.
Eu vejo, desta janela escura, a morte dos sonhos dos outros. Eu observo o cadáver que ficou em cada um, e pergunto-me onde estão os meus próprios cadáveres. Olho pra dentro, da janela escura da alma, e encontro tudo aquilo que eu amei em outra vida. Porque o amor pelas coisas, com o passar e o pesar do tempo, transforma-as em defuntos, apenas pra organizar a entropia. É um amor em estado de latência, de potência, uma mola comprimida, pra caber mais amor. São cadáveres empilhados pra dar lugar a novos cadáveres. Porque o amor é assim, cria e descria, dá e tira. E de um jeito engraçado temos que lidar com isso.
E quando dou por mim, já senti tudo nas mãos e também já ficaram vazias. Já senti a areia escorrendo por entre os dedos, sobrando apenas o meu calor. Já senti a respiração partindo, e o ar de dentro sendo insuficiente. Mas também, logo o meu calor transforma-se em vida, e a minha respiração falha em fonte. Logo as minhas mãos preenchem-se novamente de idéias, o dinamismo profundo de amar.
Rio-me e sei que às vezes choro. Mas se é assim, é porque ainda não presenciei a morte dos meus sonhos. É porque, ao ver pela janela escura, defronte da luz um pouco mais adiante, sei que talvez um dia eu seja testemunha deste assassinato - mas ainda a vida me é uma quimera por essência.
terça-feira, julho 26, 2011
Fisioverborragia
Céus, que repulsão!
Engoli três versos e cuspi dois. Este, naufragado, cambaleia em alguma parte de mim; e já bêbado dos meus vícios costura os alvéolos que, coloquialmente cansados, terminam onde inicia a boca do estômago - a porta em que tudo vem e vai, o medo e o vazio, o tudo e o nada, o verbo na ponta da língua e o silêncio nas nascentes da poesia .
Engoli três versos e cuspi dois. Este, naufragado, cambaleia em alguma parte de mim; e já bêbado dos meus vícios costura os alvéolos que, coloquialmente cansados, terminam onde inicia a boca do estômago - a porta em que tudo vem e vai, o medo e o vazio, o tudo e o nada, o verbo na ponta da língua e o silêncio nas nascentes da poesia .
sexta-feira, julho 15, 2011
Certamente
se eu contasse para o Neves da padaria, bem como para a sua mulher e dois filhos também, me olhariam fixo com a face esbugalhada e diriam: "Você é louca? Não está vendo?". E de certeira quando me olho de fora, quando tiro todas as máscaras e finjo não ser eu, pergunto a mesma coisa que o Neves e seu rebanho. Tudo é óbvio e equacionável.
Mas quando olho para mim, quando me volto para dentro, nada é tão claro assim. O que havia tomado solução inteira passa a questionar as premissas. A minha dedução torna-se indução.
Eis a maior cegueira: se me volto para dentro, os desejos passam a fazer parte da minha ideia de realidade e, terrivelmente, a modificá-la.
[...]
De repente me esboço frente ao espelho. Quantos olhos eu já julguei insanos quando acreditaram nas minhas falácias? Quantas vidas eu já julguei primitivas por incorporarem uma ideia aparentemente absurda?
Hoje eu vejo que apenas se voltaram para dentro enquanto eu, verdadeiramente estúpida, tentava moldar o que estava fora. Hoje eu sou uma dessas pessoas, assim como todos o são. Eu sempre fui, assim como todos sempre foram.
Cética? Só quando não é comigo. Centrada? Só quando é pra falar do outro, e não de mim.
[...]
Esboço-me no espelho mais uma vez.
Eu quero nascer de novo dentro de mim, de um jeito novo, à parte de tudo e sendo parte de tudo. Quero ir para a direita e ver como teria sido.. atravessar a rua em um dia qualquer em meio a um tormento e ver se isso mudaria a minha vida. Contar histórias inéditas e ver se isso mudaria o meu senso de mim. Ter sorrido mais vistosamente naquele momento e ver se isso teria trazido calamidade.
Eu queria morrer para ver como é, e se não fosse gracioso, voltar como se nada tivesse acontecido. Eu queria nascer para ver como é, e se não fosse leve, voltar como se nada tivesse acontecido.
Por quê as coisas têm apenas uma via? Por quê não é possível passear pelos dois lados? Por quê viver com o ceticismo do vizinho e não poder voltar e contar a história certa?
Sinto um cansaço de mim e de tudo.
E volto-me para fora de novo, com um olhar de um desenhista, com a ironia do destino. E tudo o que eu vejo são risos indecifráveis e provérbios que eu jamais escutei.
Mas eu não respondi, não matei e nem dei razão.
Fingi que não era comigo. Fingi não ser eu. E quando me deparei novamente frente ao espelho, senti vergonha de mim.
Mas quando olho para mim, quando me volto para dentro, nada é tão claro assim. O que havia tomado solução inteira passa a questionar as premissas. A minha dedução torna-se indução.
Eis a maior cegueira: se me volto para dentro, os desejos passam a fazer parte da minha ideia de realidade e, terrivelmente, a modificá-la.
[...]
De repente me esboço frente ao espelho. Quantos olhos eu já julguei insanos quando acreditaram nas minhas falácias? Quantas vidas eu já julguei primitivas por incorporarem uma ideia aparentemente absurda?
Hoje eu vejo que apenas se voltaram para dentro enquanto eu, verdadeiramente estúpida, tentava moldar o que estava fora. Hoje eu sou uma dessas pessoas, assim como todos o são. Eu sempre fui, assim como todos sempre foram.
Cética? Só quando não é comigo. Centrada? Só quando é pra falar do outro, e não de mim.
[...]
Esboço-me no espelho mais uma vez.
Eu quero nascer de novo dentro de mim, de um jeito novo, à parte de tudo e sendo parte de tudo. Quero ir para a direita e ver como teria sido.. atravessar a rua em um dia qualquer em meio a um tormento e ver se isso mudaria a minha vida. Contar histórias inéditas e ver se isso mudaria o meu senso de mim. Ter sorrido mais vistosamente naquele momento e ver se isso teria trazido calamidade.
Eu queria morrer para ver como é, e se não fosse gracioso, voltar como se nada tivesse acontecido. Eu queria nascer para ver como é, e se não fosse leve, voltar como se nada tivesse acontecido.
Por quê as coisas têm apenas uma via? Por quê não é possível passear pelos dois lados? Por quê viver com o ceticismo do vizinho e não poder voltar e contar a história certa?
Sinto um cansaço de mim e de tudo.
E volto-me para fora de novo, com um olhar de um desenhista, com a ironia do destino. E tudo o que eu vejo são risos indecifráveis e provérbios que eu jamais escutei.
Mas eu não respondi, não matei e nem dei razão.
Fingi que não era comigo. Fingi não ser eu. E quando me deparei novamente frente ao espelho, senti vergonha de mim.
domingo, julho 10, 2011
domingo, junho 19, 2011
Inconstância
Sou eu, e uma confusão inquieta de disparos e silêncio.
Sou eu, uma floresta inteira de pensamentos, um furacão vil de sonhos,
e mais silêncio.
Mas e se não fosse eu, o quê seria?
Quantos sonhos e florestas e furacões teriam dentro de mim?
Quantas noites eu poderia dormir verdadeiramente dormidas sem contar por horas
tudo aquilo que eu ainda não fui na vida?
Quantas respirações verdadeiramente pausadas e desaceleradas de tudo,
realmente desapegadas de tudo,
eu enviaria ao mundo por minuto?
Por quanto tempo eu conseguiria ser eu, sem ser fadada ao tédio,
sem proliferar a inquietude indômita em minha insensatez?
Ah, mas sou eu. E comigo, não tem jeito.
Serei sempre a doente, a enferma do próprio fluxo e pulsar
descontínuo da alma.
Serei sempre quem não tem medo, quem não desiste,
e por isso tem todo o medo de começar para não ter que chegar ao fim.
Serei a exausta, a que suspira desejando pensamentos que não sejam à parte
do meu corpo, da minha existência, da minha idéia de realidade.
Porque a realidade é uma idéia dela.
Serei eu, que nunca estarei onde gostaria de estar,
porque no instante em que eu quis estar já me invadiu outra vontade
de Ser.
Essa confusão inquieta, submissa às idéias de tudo, que têm planos próprios
e não me deixam contar anedotas descompromissadamente frente ao espelho...
Um êxtase que vêm como um vento, um vento forte que sopra
a luz dos meus olhos e depois parte sem nenhum receio moral do que ficou.
Tudo em mim é efêmero, tudo é tudo e nada.
Tudo começa com o peito alvoroçado saltando ao corpo,
e torna-se uma farsa, um eboço mal desenhado de mim.
Tudo começa fadado ao fim de mim. Porque sou eu, uma confusão inquieta.
Será que se não fosse eu uma hora dessas estaria
desabotoando flores em um campo qualquer?
Será que teria apenas um amor até o fim da vida,
que conseguiria esgotar todos os diálogos e mesmo
cega, surda e muda seria até o fim da vida?
Será que frente aos meus olhos cansados e à pouca graça
que o mundo sorri às vezes, eu estaria ainda desabotoando
rosas?
Mas sou eu. Não tem jeito.
Que modorra..
Sou eu, uma floresta inteira de pensamentos, um furacão vil de sonhos,
e mais silêncio.
Mas e se não fosse eu, o quê seria?
Quantos sonhos e florestas e furacões teriam dentro de mim?
Quantas noites eu poderia dormir verdadeiramente dormidas sem contar por horas
tudo aquilo que eu ainda não fui na vida?
Quantas respirações verdadeiramente pausadas e desaceleradas de tudo,
realmente desapegadas de tudo,
eu enviaria ao mundo por minuto?
Por quanto tempo eu conseguiria ser eu, sem ser fadada ao tédio,
sem proliferar a inquietude indômita em minha insensatez?
Ah, mas sou eu. E comigo, não tem jeito.
Serei sempre a doente, a enferma do próprio fluxo e pulsar
descontínuo da alma.
Serei sempre quem não tem medo, quem não desiste,
e por isso tem todo o medo de começar para não ter que chegar ao fim.
Serei a exausta, a que suspira desejando pensamentos que não sejam à parte
do meu corpo, da minha existência, da minha idéia de realidade.
Porque a realidade é uma idéia dela.
Serei eu, que nunca estarei onde gostaria de estar,
porque no instante em que eu quis estar já me invadiu outra vontade
de Ser.
Essa confusão inquieta, submissa às idéias de tudo, que têm planos próprios
e não me deixam contar anedotas descompromissadamente frente ao espelho...
Um êxtase que vêm como um vento, um vento forte que sopra
a luz dos meus olhos e depois parte sem nenhum receio moral do que ficou.
Tudo em mim é efêmero, tudo é tudo e nada.
Tudo começa com o peito alvoroçado saltando ao corpo,
e torna-se uma farsa, um eboço mal desenhado de mim.
Tudo começa fadado ao fim de mim. Porque sou eu, uma confusão inquieta.
Será que se não fosse eu uma hora dessas estaria
desabotoando flores em um campo qualquer?
Será que teria apenas um amor até o fim da vida,
que conseguiria esgotar todos os diálogos e mesmo
cega, surda e muda seria até o fim da vida?
Será que frente aos meus olhos cansados e à pouca graça
que o mundo sorri às vezes, eu estaria ainda desabotoando
rosas?
Mas sou eu. Não tem jeito.
Que modorra..
quinta-feira, maio 19, 2011
Da metamorfose
Até hoje eu conheci muitas bestas de carga, alguns leões e nenhuma criança. Êh Zaratustra, em que mundo vives?
quinta-feira, março 10, 2011
Imperfeição
A realidade é um espaço vazio de Universos em processos cíclicos de criação, expansão e aniquilamento.
Planetas que se criam, descriam, descobrem-se e mudam de posição hierárquica.
- Planetas anões, satélites, cometas, Éris e Plutão.
A realidade é um espaço vazio em meio à assimetria e imperfeição da história. Da História.
A realidade é um paradoxo de quem desafia, sonha e por isso tem história.
É uma lacuna vaga e curvelínea do Ser, um preto e branco sem cor, vida, mensuração ou forma.
É uma idéia, uma idéia que muda de posição hierárquica, de posição espacial, de posição (a)temporal e de plenitude.
Não há plenitude. Há uma idéia.
A realidade é uma forma de se dormir melhor. De conhecer o mundo inteiro antes de levantar da cama. De criar e (as)sumir.
De (man)ter uma idéia de si, das coisas e do resto do caos.
Planetas que se criam, descriam, descobrem-se e mudam de posição hierárquica.
- Planetas anões, satélites, cometas, Éris e Plutão.
A realidade é um espaço vazio em meio à assimetria e imperfeição da história. Da História.
A realidade é um paradoxo de quem desafia, sonha e por isso tem história.
É uma lacuna vaga e curvelínea do Ser, um preto e branco sem cor, vida, mensuração ou forma.
É uma idéia, uma idéia que muda de posição hierárquica, de posição espacial, de posição (a)temporal e de plenitude.
Não há plenitude. Há uma idéia.
A realidade é uma forma de se dormir melhor. De conhecer o mundo inteiro antes de levantar da cama. De criar e (as)sumir.
De (man)ter uma idéia de si, das coisas e do resto do caos.
sábado, janeiro 08, 2011
Os meus olhos estão baixos
E em mim sinto todo o peso do Mundo,
da Natureza, dos rebanhos vivos e do Universo.
Penso em meio desta modorra inquieta
nos mitos de criação,
nos homens antigos e igualmente perturbados,
e já não encontro nenhuma diferença entre o que eu sei dos livros e
de alguma vida vivida.
O verso, o multiverso, as cordas, as supercordas, o cubo, o hipercubo...
Quantas coisas já inventaram para explicar todo o pesar da alma?
Quantas dimensões são necessárias para acalmar o buraco negro
que há em cada silêncio adoecido?
E dentro, um Universo inteiro agitado, confuso, soturno,
que dilata e contrai,
assim como o tempo e o espaço.
O tempo infinito de cada sonho inesgotável,
o espaço das vísceras encolhendo-se para gerar um novo espaço..
Sou um Universo cheio de matéria e espaço vazio,
mais espaço vazio do que matéria..
Sou isso e aquilo, mas sei que no fundo
sou o desconhecido, o etéreo, o efêmero, o sombrio,
assim como todas as coisas o são.
Tenho em mim colidindo aos ventos de minha alma
toda a vontade de potência, toda a revolução preguiçosa,
o novo dia que há por vir e que ainda não deu as caras..
Ah, o porvir..
Deixo para amanhã..
Deixo para os deuses, sabe-se lá quem são,
Deixo para o código oculto da Natureza,
sabe-se lá se existe.
Deixo para toda a assimetria do Cosmos,
essa dança imperfeita da vida,
consciência íntima das coisas..
Porque dentro de mim resta a solidão perante o imenso dos céus
e quando olho para os planetas vizinhos, para o Infinito da noite terrível,
não há esperança de vida extracorpórea alguma,
apenas o cansaço dos sentidos e um sono profundo de mim.
Ah, o porvir..
E em mim sinto todo o peso do Mundo,
da Natureza, dos rebanhos vivos e do Universo.
Penso em meio desta modorra inquieta
nos mitos de criação,
nos homens antigos e igualmente perturbados,
e já não encontro nenhuma diferença entre o que eu sei dos livros e
de alguma vida vivida.
O verso, o multiverso, as cordas, as supercordas, o cubo, o hipercubo...
Quantas coisas já inventaram para explicar todo o pesar da alma?
Quantas dimensões são necessárias para acalmar o buraco negro
que há em cada silêncio adoecido?
E dentro, um Universo inteiro agitado, confuso, soturno,
que dilata e contrai,
assim como o tempo e o espaço.
O tempo infinito de cada sonho inesgotável,
o espaço das vísceras encolhendo-se para gerar um novo espaço..
Sou um Universo cheio de matéria e espaço vazio,
mais espaço vazio do que matéria..
Sou isso e aquilo, mas sei que no fundo
sou o desconhecido, o etéreo, o efêmero, o sombrio,
assim como todas as coisas o são.
Tenho em mim colidindo aos ventos de minha alma
toda a vontade de potência, toda a revolução preguiçosa,
o novo dia que há por vir e que ainda não deu as caras..
Ah, o porvir..
Deixo para amanhã..
Deixo para os deuses, sabe-se lá quem são,
Deixo para o código oculto da Natureza,
sabe-se lá se existe.
Deixo para toda a assimetria do Cosmos,
essa dança imperfeita da vida,
consciência íntima das coisas..
Porque dentro de mim resta a solidão perante o imenso dos céus
e quando olho para os planetas vizinhos, para o Infinito da noite terrível,
não há esperança de vida extracorpórea alguma,
apenas o cansaço dos sentidos e um sono profundo de mim.
Ah, o porvir..
quinta-feira, novembro 04, 2010
Caricatura
Eu já deveria ter me posto a dormir
Fechado as janelas que sopram ventos mais
fortes em meus vaivéns,
Arrancado pela raiz o delírio prestes a nascer.
Porque nessas condições, qualquer idéia que me venha
à cabeça é malparida,
Qualquer pensamento mais profundo é inútil
Nasce, cresce e morre na manhã seguinte.
E de nada adianta tentar eternizá-los em palavras,
porque no fundo, são só palavras.
A passagem das horas despreza o que encontrei em mim
E o dia que nasce gera um novo eu -
diferente de tudo o que tentei proferir em meias palavras.
Ah, como eu queria nunca fechar as janelas
E deixar, sem pressa, os pensamentos fluirem
Simplesmente por hoje, e apenas hoje,
haver uma testemunha - o sentir.
Tenho-me feito um cubo de cores
em que há mil formas de montá-lo,
só por precaução
(e seguindo a lógica, deve haver mil formas de
desmontá-lo também).
Talvez se eu fechar a janela
e abrir a porta
os meus sonhos flutuem junto aos meus pensamentos
E quem sabe, descompromissadamente, eles se tornem um só.
(Talvez podem ir um para cada lado e tomarem direções distintas,
para nunca mais voltar.
Provável, pois tenho em mim toda a culpa imoral de que amanhã
nada disso terá gerado um filho primogênito,
e eu serei mais uma moribunda com ressaca nos olhos).
Me arrependo (só um pouco) de ter deixado florescer
na luz da noite os meus pensamentos e alguns sonhos
De não ter arrancado aquela raiz enquanto estava em tempo,
de não ter resistido à mim mesma.
Agora eu sei que tudo será longo, e inacabado,
até que o sol tonto a raiar apague todos os vestígios surdos
de estrelas recém-nascidas e desmemoriadas.
Fechado as janelas que sopram ventos mais
fortes em meus vaivéns,
Arrancado pela raiz o delírio prestes a nascer.
Porque nessas condições, qualquer idéia que me venha
à cabeça é malparida,
Qualquer pensamento mais profundo é inútil
Nasce, cresce e morre na manhã seguinte.
E de nada adianta tentar eternizá-los em palavras,
porque no fundo, são só palavras.
A passagem das horas despreza o que encontrei em mim
E o dia que nasce gera um novo eu -
diferente de tudo o que tentei proferir em meias palavras.
Ah, como eu queria nunca fechar as janelas
E deixar, sem pressa, os pensamentos fluirem
Simplesmente por hoje, e apenas hoje,
haver uma testemunha - o sentir.
Tenho-me feito um cubo de cores
em que há mil formas de montá-lo,
só por precaução
(e seguindo a lógica, deve haver mil formas de
desmontá-lo também).
Talvez se eu fechar a janela
e abrir a porta
os meus sonhos flutuem junto aos meus pensamentos
E quem sabe, descompromissadamente, eles se tornem um só.
(Talvez podem ir um para cada lado e tomarem direções distintas,
para nunca mais voltar.
Provável, pois tenho em mim toda a culpa imoral de que amanhã
nada disso terá gerado um filho primogênito,
e eu serei mais uma moribunda com ressaca nos olhos).
Me arrependo (só um pouco) de ter deixado florescer
na luz da noite os meus pensamentos e alguns sonhos
De não ter arrancado aquela raiz enquanto estava em tempo,
de não ter resistido à mim mesma.
Agora eu sei que tudo será longo, e inacabado,
até que o sol tonto a raiar apague todos os vestígios surdos
de estrelas recém-nascidas e desmemoriadas.
terça-feira, novembro 02, 2010
Sinceramente,
Eu não possuo a saudade; ela me possui.
Para isto, meus caros, o final do dia é um presente, uma dádiva, só para que se possa dizer "Ah, menos um!".
E dormir pela metade por reconhecer que, talvez, toda a realidade dentro de si seja uma farsa espreguiçando-se entre o capricho e a tolice.
A saudade é uma grande tolice.
E que não me venham os calmos dizer que é consequencia de viver. Que não me venham os comuns e controlados dizer que é a reação da ação. Não me venham, por favor, os caçadores de paciência discursar que é a prova de possuir algo real.
A saudade dói. É um vírus, uma moléstia, um imposto caro e injusto (mas que se continua pagando).
É como adoecer, como a injeção a tomar para depois expirar um alívio de que tudo vai ficar bem. É como engolir o remédio para dormir e rezar para o tempo se desintegrar do resto do universo e passar mais rápido - como querer distorcer todas as leis e criar um espaço egoísta e cego, longe de qualquer estado de consciência.
Tornamo-nos adictos e sedentários.
E quando a saudade se vai, o arrependimento inoportuno de tê-la amarrado nos pés e carregado consigo como um bêbado mancando.
E depois o alívio, o sorriso amortecido de volta, a leveza imprecisa do corpo, a anestesia da alma. Tudo soa como uma recompensa, uma indenização pelo plástico barato envolto nos pulmões, um pedido de desculpas envergonhado ao transtorno causado. Mas isso não é a saudade. É uma consequencia vil e mesquinha dela.
A saudade em si é uma grande tolice.
Para isto, meus caros, o final do dia é um presente, uma dádiva, só para que se possa dizer "Ah, menos um!".
E dormir pela metade por reconhecer que, talvez, toda a realidade dentro de si seja uma farsa espreguiçando-se entre o capricho e a tolice.
A saudade é uma grande tolice.
E que não me venham os calmos dizer que é consequencia de viver. Que não me venham os comuns e controlados dizer que é a reação da ação. Não me venham, por favor, os caçadores de paciência discursar que é a prova de possuir algo real.
A saudade dói. É um vírus, uma moléstia, um imposto caro e injusto (mas que se continua pagando).
É como adoecer, como a injeção a tomar para depois expirar um alívio de que tudo vai ficar bem. É como engolir o remédio para dormir e rezar para o tempo se desintegrar do resto do universo e passar mais rápido - como querer distorcer todas as leis e criar um espaço egoísta e cego, longe de qualquer estado de consciência.
Tornamo-nos adictos e sedentários.
E quando a saudade se vai, o arrependimento inoportuno de tê-la amarrado nos pés e carregado consigo como um bêbado mancando.
E depois o alívio, o sorriso amortecido de volta, a leveza imprecisa do corpo, a anestesia da alma. Tudo soa como uma recompensa, uma indenização pelo plástico barato envolto nos pulmões, um pedido de desculpas envergonhado ao transtorno causado. Mas isso não é a saudade. É uma consequencia vil e mesquinha dela.
A saudade em si é uma grande tolice.
segunda-feira, setembro 13, 2010
Locomotiva
Por agora eu apenas comprei o bilhete de ida
e vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos,
vi em plenitude o Universo todo me abraçando
quando saltaram-me da face os monóculos.
Para me sentir, precisei sentir tudo.
E todas as horas são minhas,
cada vez menos depressa.
e vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos,
vi em plenitude o Universo todo me abraçando
quando saltaram-me da face os monóculos.
Para me sentir, precisei sentir tudo.
E todas as horas são minhas,
cada vez menos depressa.
terça-feira, agosto 31, 2010
Afinal
No fim do mundo, do alto de todos os saberes, eu apenas gostaria de sentir e nada saber.
E olhar para baixo, para os ignorantes que sorriem entre o sol e o rebanho, e invejá-los impiedosamente.
Mas eu sou apenas uma diminuta forma, um copo metade vazio. Eu nada sei e nada sinto em plenitude. Tudo o que fica é uma cosquinha, uma idéia, uma saudade.
Quantos goles atropelados em busca de moléstias, as quais eu não posso pagar por vida vivida?
Vida vivida sim, porque a vida sonhada eu conheço bem.
Quantas vezes olhei para as estrelas, e inquietamente me perguntei,
- "Da onde vieram?"
(Quantas vezes não olhei para as estrelas, justamente por não saber da onde vieram).
- "Desisto, a maioria está morta, nos enganam com luzes enterradas no espaço-tempo".
E por um segundo deixei de saber e apenas senti. Olhei novamente e a única coisa que me ocorreu foi,
- "Oh!"
Entre pouco e quase nada, a estrela passou a existir quando eu a olhei.
Quando as observei com os olhos, com a alma de um mortal, com a ciência de um curandeiro, com a filosofia de um cansado.
E eu sorri admirando os pequeninos defuntos brilhantes, os mais belos que já vislumbrei. Tudo existiu, e eu enfim senti todas as coisas - e as coisas me sentiram pela primeira vez.
E olhar para baixo, para os ignorantes que sorriem entre o sol e o rebanho, e invejá-los impiedosamente.
Mas eu sou apenas uma diminuta forma, um copo metade vazio. Eu nada sei e nada sinto em plenitude. Tudo o que fica é uma cosquinha, uma idéia, uma saudade.
Quantos goles atropelados em busca de moléstias, as quais eu não posso pagar por vida vivida?
Vida vivida sim, porque a vida sonhada eu conheço bem.
Quantas vezes olhei para as estrelas, e inquietamente me perguntei,
- "Da onde vieram?"
(Quantas vezes não olhei para as estrelas, justamente por não saber da onde vieram).
- "Desisto, a maioria está morta, nos enganam com luzes enterradas no espaço-tempo".
E por um segundo deixei de saber e apenas senti. Olhei novamente e a única coisa que me ocorreu foi,
- "Oh!"
Entre pouco e quase nada, a estrela passou a existir quando eu a olhei.
Quando as observei com os olhos, com a alma de um mortal, com a ciência de um curandeiro, com a filosofia de um cansado.
E eu sorri admirando os pequeninos defuntos brilhantes, os mais belos que já vislumbrei. Tudo existiu, e eu enfim senti todas as coisas - e as coisas me sentiram pela primeira vez.
quinta-feira, agosto 19, 2010
Ressaca moral
Fecho os olhos e me esforço para lembrar quem eu era na primavera passada.
Na retrasada talvez eu tivesse sido mais feliz. Mas eu não lembro.
[Distraio-me.
Abro o livro dos poemas em uma metade qualquer, na esperança de usurpar uma sequência de palavras reflexivas.
Injeto-me meia dúzia, como um horóscopo desesperado].
Meu Deus, eu me tornei uma fraude!
[e ainda espirrei ao fechar o livro].
Na retrasada talvez eu tivesse sido mais feliz. Mas eu não lembro.
[Distraio-me.
Abro o livro dos poemas em uma metade qualquer, na esperança de usurpar uma sequência de palavras reflexivas.
Injeto-me meia dúzia, como um horóscopo desesperado].
Meu Deus, eu me tornei uma fraude!
[e ainda espirrei ao fechar o livro].
quarta-feira, agosto 11, 2010
Epifania
Os homens da ciência são poetas da própria solidão e da solidão de todas as coisas (condenados pelo silêncio do Universo - as perguntas sem respostas descansadas). Os homens da ciência têm impacto e nenhuma rima, e por isso as almas são vistas como um balde primitivo de sonhos e sentidos equacionáveis. Ah, meus caros, os homens da ciência sofem, e sofrem duas vezes: por saberem que quando a noite cai a vida será longa e que quando o dia amanhece, cada hora fica tão curta [...]
(conto-lhes um segredo: durante a noite leio versos de poetas mortos que descansam em minha prateleira, só para poder enfim entender, ao amanhecer, que a tal molécula não serve para nada).
E às vezes, durante o labor, cansada em meio a tantos textos de diversas formas e palavras que beiram a neologismos viciosos, que falam muito e falam pouco, pergunto-me impiedosamente:
Por quê é mesmo que eu fui embora de casa?
E de repente sinto todos os receios morais do mundo.
Até que o tédio é corrompido e me invade a doce epifania de que amanhã tem mais, e sempre terá. E isso é um bom motivo para acordar (e, consequentemente, para não dormir também). Tudo fica bem.
Quem sabe os homens da ciência estejam bem.
Quem sabe a luminária fraquinha no canto da mesa nem note a passagem das horas.
(conto-lhes um segredo: durante a noite leio versos de poetas mortos que descansam em minha prateleira, só para poder enfim entender, ao amanhecer, que a tal molécula não serve para nada).
E às vezes, durante o labor, cansada em meio a tantos textos de diversas formas e palavras que beiram a neologismos viciosos, que falam muito e falam pouco, pergunto-me impiedosamente:
Por quê é mesmo que eu fui embora de casa?
E de repente sinto todos os receios morais do mundo.
Até que o tédio é corrompido e me invade a doce epifania de que amanhã tem mais, e sempre terá. E isso é um bom motivo para acordar (e, consequentemente, para não dormir também). Tudo fica bem.
Quem sabe os homens da ciência estejam bem.
Quem sabe a luminária fraquinha no canto da mesa nem note a passagem das horas.
segunda-feira, agosto 09, 2010
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Quem sou eu
- F., Manoela
- Uma vírgula entre duas frases. O ponto é o limite que eu ultrapasso [...] Nasci para, incansavelmente, complementar o que já concluí.