A loucura é a expressão dos vivos.
quinta-feira, maio 19, 2011
Da metamorfose
Até hoje eu conheci muitas bestas de carga, alguns leões e nenhuma criança. Êh Zaratustra, em que mundo vives?
quinta-feira, março 10, 2011
Imperfeição
A realidade é um espaço vazio de Universos em processos cíclicos de criação, expansão e aniquilamento.
Planetas que se criam, descriam, descobrem-se e mudam de posição hierárquica.
- Planetas anões, satélites, cometas, Éris e Plutão.
A realidade é um espaço vazio em meio à assimetria e imperfeição da história. Da História.
A realidade é um paradoxo de quem desafia, sonha e por isso tem história.
É uma lacuna vaga e curvelínea do Ser, um preto e branco sem cor, vida, mensuração ou forma.
É uma idéia, uma idéia que muda de posição hierárquica, de posição espacial, de posição (a)temporal e de plenitude.
Não há plenitude. Há uma idéia.
A realidade é uma forma de se dormir melhor. De conhecer o mundo inteiro antes de levantar da cama. De criar e (as)sumir.
De (man)ter uma idéia de si, das coisas e do resto do caos.
Planetas que se criam, descriam, descobrem-se e mudam de posição hierárquica.
- Planetas anões, satélites, cometas, Éris e Plutão.
A realidade é um espaço vazio em meio à assimetria e imperfeição da história. Da História.
A realidade é um paradoxo de quem desafia, sonha e por isso tem história.
É uma lacuna vaga e curvelínea do Ser, um preto e branco sem cor, vida, mensuração ou forma.
É uma idéia, uma idéia que muda de posição hierárquica, de posição espacial, de posição (a)temporal e de plenitude.
Não há plenitude. Há uma idéia.
A realidade é uma forma de se dormir melhor. De conhecer o mundo inteiro antes de levantar da cama. De criar e (as)sumir.
De (man)ter uma idéia de si, das coisas e do resto do caos.
sábado, janeiro 08, 2011
Os meus olhos estão baixos
E em mim sinto todo o peso do Mundo,
da Natureza, dos rebanhos vivos e do Universo.
Penso em meio desta modorra inquieta
nos mitos de criação,
nos homens antigos e igualmente perturbados,
e já não encontro nenhuma diferença entre o que eu sei dos livros e
de alguma vida vivida.
O verso, o multiverso, as cordas, as supercordas, o cubo, o hipercubo...
Quantas coisas já inventaram para explicar todo o pesar da alma?
Quantas dimensões são necessárias para acalmar o buraco negro
que há em cada silêncio adoecido?
E dentro, um Universo inteiro agitado, confuso, soturno,
que dilata e contrai,
assim como o tempo e o espaço.
O tempo infinito de cada sonho inesgotável,
o espaço das vísceras encolhendo-se para gerar um novo espaço..
Sou um Universo cheio de matéria e espaço vazio,
mais espaço vazio do que matéria..
Sou isso e aquilo, mas sei que no fundo
sou o desconhecido, o etéreo, o efêmero, o sombrio,
assim como todas as coisas o são.
Tenho em mim colidindo aos ventos de minha alma
toda a vontade de potência, toda a revolução preguiçosa,
o novo dia que há por vir e que ainda não deu as caras..
Ah, o porvir..
Deixo para amanhã..
Deixo para os deuses, sabe-se lá quem são,
Deixo para o código oculto da Natureza,
sabe-se lá se existe.
Deixo para toda a assimetria do Cosmos,
essa dança imperfeita da vida,
consciência íntima das coisas..
Porque dentro de mim resta a solidão perante o imenso dos céus
e quando olho para os planetas vizinhos, para o Infinito da noite terrível,
não há esperança de vida extracorpórea alguma,
apenas o cansaço dos sentidos e um sono profundo de mim.
Ah, o porvir..
E em mim sinto todo o peso do Mundo,
da Natureza, dos rebanhos vivos e do Universo.
Penso em meio desta modorra inquieta
nos mitos de criação,
nos homens antigos e igualmente perturbados,
e já não encontro nenhuma diferença entre o que eu sei dos livros e
de alguma vida vivida.
O verso, o multiverso, as cordas, as supercordas, o cubo, o hipercubo...
Quantas coisas já inventaram para explicar todo o pesar da alma?
Quantas dimensões são necessárias para acalmar o buraco negro
que há em cada silêncio adoecido?
E dentro, um Universo inteiro agitado, confuso, soturno,
que dilata e contrai,
assim como o tempo e o espaço.
O tempo infinito de cada sonho inesgotável,
o espaço das vísceras encolhendo-se para gerar um novo espaço..
Sou um Universo cheio de matéria e espaço vazio,
mais espaço vazio do que matéria..
Sou isso e aquilo, mas sei que no fundo
sou o desconhecido, o etéreo, o efêmero, o sombrio,
assim como todas as coisas o são.
Tenho em mim colidindo aos ventos de minha alma
toda a vontade de potência, toda a revolução preguiçosa,
o novo dia que há por vir e que ainda não deu as caras..
Ah, o porvir..
Deixo para amanhã..
Deixo para os deuses, sabe-se lá quem são,
Deixo para o código oculto da Natureza,
sabe-se lá se existe.
Deixo para toda a assimetria do Cosmos,
essa dança imperfeita da vida,
consciência íntima das coisas..
Porque dentro de mim resta a solidão perante o imenso dos céus
e quando olho para os planetas vizinhos, para o Infinito da noite terrível,
não há esperança de vida extracorpórea alguma,
apenas o cansaço dos sentidos e um sono profundo de mim.
Ah, o porvir..
quinta-feira, novembro 04, 2010
Caricatura
Eu já deveria ter me posto a dormir
Fechado as janelas que sopram ventos mais
fortes em meus vaivéns,
Arrancado pela raiz o delírio prestes a nascer.
Porque nessas condições, qualquer idéia que me venha
à cabeça é malparida,
Qualquer pensamento mais profundo é inútil
Nasce, cresce e morre na manhã seguinte.
E de nada adianta tentar eternizá-los em palavras,
porque no fundo, são só palavras.
A passagem das horas despreza o que encontrei em mim
E o dia que nasce gera um novo eu -
diferente de tudo o que tentei proferir em meias palavras.
Ah, como eu queria nunca fechar as janelas
E deixar, sem pressa, os pensamentos fluirem
Simplesmente por hoje, e apenas hoje,
haver uma testemunha - o sentir.
Tenho-me feito um cubo de cores
em que há mil formas de montá-lo,
só por precaução
(e seguindo a lógica, deve haver mil formas de
desmontá-lo também).
Talvez se eu fechar a janela
e abrir a porta
os meus sonhos flutuem junto aos meus pensamentos
E quem sabe, descompromissadamente, eles se tornem um só.
(Talvez podem ir um para cada lado e tomarem direções distintas,
para nunca mais voltar.
Provável, pois tenho em mim toda a culpa imoral de que amanhã
nada disso terá gerado um filho primogênito,
e eu serei mais uma moribunda com ressaca nos olhos).
Me arrependo (só um pouco) de ter deixado florescer
na luz da noite os meus pensamentos e alguns sonhos
De não ter arrancado aquela raiz enquanto estava em tempo,
de não ter resistido à mim mesma.
Agora eu sei que tudo será longo, e inacabado,
até que o sol tonto a raiar apague todos os vestígios surdos
de estrelas recém-nascidas e desmemoriadas.
Fechado as janelas que sopram ventos mais
fortes em meus vaivéns,
Arrancado pela raiz o delírio prestes a nascer.
Porque nessas condições, qualquer idéia que me venha
à cabeça é malparida,
Qualquer pensamento mais profundo é inútil
Nasce, cresce e morre na manhã seguinte.
E de nada adianta tentar eternizá-los em palavras,
porque no fundo, são só palavras.
A passagem das horas despreza o que encontrei em mim
E o dia que nasce gera um novo eu -
diferente de tudo o que tentei proferir em meias palavras.
Ah, como eu queria nunca fechar as janelas
E deixar, sem pressa, os pensamentos fluirem
Simplesmente por hoje, e apenas hoje,
haver uma testemunha - o sentir.
Tenho-me feito um cubo de cores
em que há mil formas de montá-lo,
só por precaução
(e seguindo a lógica, deve haver mil formas de
desmontá-lo também).
Talvez se eu fechar a janela
e abrir a porta
os meus sonhos flutuem junto aos meus pensamentos
E quem sabe, descompromissadamente, eles se tornem um só.
(Talvez podem ir um para cada lado e tomarem direções distintas,
para nunca mais voltar.
Provável, pois tenho em mim toda a culpa imoral de que amanhã
nada disso terá gerado um filho primogênito,
e eu serei mais uma moribunda com ressaca nos olhos).
Me arrependo (só um pouco) de ter deixado florescer
na luz da noite os meus pensamentos e alguns sonhos
De não ter arrancado aquela raiz enquanto estava em tempo,
de não ter resistido à mim mesma.
Agora eu sei que tudo será longo, e inacabado,
até que o sol tonto a raiar apague todos os vestígios surdos
de estrelas recém-nascidas e desmemoriadas.
terça-feira, novembro 02, 2010
Sinceramente,
Eu não possuo a saudade; ela me possui.
Para isto, meus caros, o final do dia é um presente, uma dádiva, só para que se possa dizer "Ah, menos um!".
E dormir pela metade por reconhecer que, talvez, toda a realidade dentro de si seja uma farsa espreguiçando-se entre o capricho e a tolice.
A saudade é uma grande tolice.
E que não me venham os calmos dizer que é consequencia de viver. Que não me venham os comuns e controlados dizer que é a reação da ação. Não me venham, por favor, os caçadores de paciência discursar que é a prova de possuir algo real.
A saudade dói. É um vírus, uma moléstia, um imposto caro e injusto (mas que se continua pagando).
É como adoecer, como a injeção a tomar para depois expirar um alívio de que tudo vai ficar bem. É como engolir o remédio para dormir e rezar para o tempo se desintegrar do resto do universo e passar mais rápido - como querer distorcer todas as leis e criar um espaço egoísta e cego, longe de qualquer estado de consciência.
Tornamo-nos adictos e sedentários.
E quando a saudade se vai, o arrependimento inoportuno de tê-la amarrado nos pés e carregado consigo como um bêbado mancando.
E depois o alívio, o sorriso amortecido de volta, a leveza imprecisa do corpo, a anestesia da alma. Tudo soa como uma recompensa, uma indenização pelo plástico barato envolto nos pulmões, um pedido de desculpas envergonhado ao transtorno causado. Mas isso não é a saudade. É uma consequencia vil e mesquinha dela.
A saudade em si é uma grande tolice.
Para isto, meus caros, o final do dia é um presente, uma dádiva, só para que se possa dizer "Ah, menos um!".
E dormir pela metade por reconhecer que, talvez, toda a realidade dentro de si seja uma farsa espreguiçando-se entre o capricho e a tolice.
A saudade é uma grande tolice.
E que não me venham os calmos dizer que é consequencia de viver. Que não me venham os comuns e controlados dizer que é a reação da ação. Não me venham, por favor, os caçadores de paciência discursar que é a prova de possuir algo real.
A saudade dói. É um vírus, uma moléstia, um imposto caro e injusto (mas que se continua pagando).
É como adoecer, como a injeção a tomar para depois expirar um alívio de que tudo vai ficar bem. É como engolir o remédio para dormir e rezar para o tempo se desintegrar do resto do universo e passar mais rápido - como querer distorcer todas as leis e criar um espaço egoísta e cego, longe de qualquer estado de consciência.
Tornamo-nos adictos e sedentários.
E quando a saudade se vai, o arrependimento inoportuno de tê-la amarrado nos pés e carregado consigo como um bêbado mancando.
E depois o alívio, o sorriso amortecido de volta, a leveza imprecisa do corpo, a anestesia da alma. Tudo soa como uma recompensa, uma indenização pelo plástico barato envolto nos pulmões, um pedido de desculpas envergonhado ao transtorno causado. Mas isso não é a saudade. É uma consequencia vil e mesquinha dela.
A saudade em si é uma grande tolice.
segunda-feira, setembro 13, 2010
Locomotiva
Por agora eu apenas comprei o bilhete de ida
e vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos,
vi em plenitude o Universo todo me abraçando
quando saltaram-me da face os monóculos.
Para me sentir, precisei sentir tudo.
E todas as horas são minhas,
cada vez menos depressa.
e vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos,
vi em plenitude o Universo todo me abraçando
quando saltaram-me da face os monóculos.
Para me sentir, precisei sentir tudo.
E todas as horas são minhas,
cada vez menos depressa.
terça-feira, agosto 31, 2010
Afinal
No fim do mundo, do alto de todos os saberes, eu apenas gostaria de sentir e nada saber.
E olhar para baixo, para os ignorantes que sorriem entre o sol e o rebanho, e invejá-los impiedosamente.
Mas eu sou apenas uma diminuta forma, um copo metade vazio. Eu nada sei e nada sinto em plenitude. Tudo o que fica é uma cosquinha, uma idéia, uma saudade.
Quantos goles atropelados em busca de moléstias, as quais eu não posso pagar por vida vivida?
Vida vivida sim, porque a vida sonhada eu conheço bem.
Quantas vezes olhei para as estrelas, e inquietamente me perguntei,
- "Da onde vieram?"
(Quantas vezes não olhei para as estrelas, justamente por não saber da onde vieram).
- "Desisto, a maioria está morta, nos enganam com luzes enterradas no espaço-tempo".
E por um segundo deixei de saber e apenas senti. Olhei novamente e a única coisa que me ocorreu foi,
- "Oh!"
Entre pouco e quase nada, a estrela passou a existir quando eu a olhei.
Quando as observei com os olhos, com a alma de um mortal, com a ciência de um curandeiro, com a filosofia de um cansado.
E eu sorri admirando os pequeninos defuntos brilhantes, os mais belos que já vislumbrei. Tudo existiu, e eu enfim senti todas as coisas - e as coisas me sentiram pela primeira vez.
E olhar para baixo, para os ignorantes que sorriem entre o sol e o rebanho, e invejá-los impiedosamente.
Mas eu sou apenas uma diminuta forma, um copo metade vazio. Eu nada sei e nada sinto em plenitude. Tudo o que fica é uma cosquinha, uma idéia, uma saudade.
Quantos goles atropelados em busca de moléstias, as quais eu não posso pagar por vida vivida?
Vida vivida sim, porque a vida sonhada eu conheço bem.
Quantas vezes olhei para as estrelas, e inquietamente me perguntei,
- "Da onde vieram?"
(Quantas vezes não olhei para as estrelas, justamente por não saber da onde vieram).
- "Desisto, a maioria está morta, nos enganam com luzes enterradas no espaço-tempo".
E por um segundo deixei de saber e apenas senti. Olhei novamente e a única coisa que me ocorreu foi,
- "Oh!"
Entre pouco e quase nada, a estrela passou a existir quando eu a olhei.
Quando as observei com os olhos, com a alma de um mortal, com a ciência de um curandeiro, com a filosofia de um cansado.
E eu sorri admirando os pequeninos defuntos brilhantes, os mais belos que já vislumbrei. Tudo existiu, e eu enfim senti todas as coisas - e as coisas me sentiram pela primeira vez.
quinta-feira, agosto 19, 2010
Ressaca moral
Fecho os olhos e me esforço para lembrar quem eu era na primavera passada.
Na retrasada talvez eu tivesse sido mais feliz. Mas eu não lembro.
[Distraio-me.
Abro o livro dos poemas em uma metade qualquer, na esperança de usurpar uma sequência de palavras reflexivas.
Injeto-me meia dúzia, como um horóscopo desesperado].
Meu Deus, eu me tornei uma fraude!
[e ainda espirrei ao fechar o livro].
Na retrasada talvez eu tivesse sido mais feliz. Mas eu não lembro.
[Distraio-me.
Abro o livro dos poemas em uma metade qualquer, na esperança de usurpar uma sequência de palavras reflexivas.
Injeto-me meia dúzia, como um horóscopo desesperado].
Meu Deus, eu me tornei uma fraude!
[e ainda espirrei ao fechar o livro].
quarta-feira, agosto 11, 2010
Epifania
Os homens da ciência são poetas da própria solidão e da solidão de todas as coisas (condenados pelo silêncio do Universo - as perguntas sem respostas descansadas). Os homens da ciência têm impacto e nenhuma rima, e por isso as almas são vistas como um balde primitivo de sonhos e sentidos equacionáveis. Ah, meus caros, os homens da ciência sofem, e sofrem duas vezes: por saberem que quando a noite cai a vida será longa e que quando o dia amanhece, cada hora fica tão curta [...]
(conto-lhes um segredo: durante a noite leio versos de poetas mortos que descansam em minha prateleira, só para poder enfim entender, ao amanhecer, que a tal molécula não serve para nada).
E às vezes, durante o labor, cansada em meio a tantos textos de diversas formas e palavras que beiram a neologismos viciosos, que falam muito e falam pouco, pergunto-me impiedosamente:
Por quê é mesmo que eu fui embora de casa?
E de repente sinto todos os receios morais do mundo.
Até que o tédio é corrompido e me invade a doce epifania de que amanhã tem mais, e sempre terá. E isso é um bom motivo para acordar (e, consequentemente, para não dormir também). Tudo fica bem.
Quem sabe os homens da ciência estejam bem.
Quem sabe a luminária fraquinha no canto da mesa nem note a passagem das horas.
(conto-lhes um segredo: durante a noite leio versos de poetas mortos que descansam em minha prateleira, só para poder enfim entender, ao amanhecer, que a tal molécula não serve para nada).
E às vezes, durante o labor, cansada em meio a tantos textos de diversas formas e palavras que beiram a neologismos viciosos, que falam muito e falam pouco, pergunto-me impiedosamente:
Por quê é mesmo que eu fui embora de casa?
E de repente sinto todos os receios morais do mundo.
Até que o tédio é corrompido e me invade a doce epifania de que amanhã tem mais, e sempre terá. E isso é um bom motivo para acordar (e, consequentemente, para não dormir também). Tudo fica bem.
Quem sabe os homens da ciência estejam bem.
Quem sabe a luminária fraquinha no canto da mesa nem note a passagem das horas.
segunda-feira, agosto 09, 2010
Tenho permanecido calada, apenas observando a epidemia.
Eis a contradição. Eu quero escrever para os justos e ser lida pelos miseráveis.
Eis a contradição. Eu quero escrever para os justos e ser lida pelos miseráveis.
terça-feira, julho 27, 2010
Nada
A noite e as estrelas já pintaram as faces. - Ah , há uma lacuna enorme entre o sono e a preguiça que tenho de dormir!
[O delírio é quem elogia]
Pois bem, revivendo a história, não há lacuna alguma. Tenho na metade cheia o sono e na metade vazia a preguiça de dormir. Ou vice-versa. Seja isto ou aquilo, eu tenho algo esta noite.
[O delírio é quem sente]
Eu não tenho nada esta noite - tenho metades vazias e cheias que se anulam e não formam nem isto e nem aquilo. Um todo festivo e sem graça de trapos positivos e negativos que no fim tornam-se incansáveis Neutros.
Neutro? Quem é esse indeciso? Empacoto e o Tédio que venha buscá-lo.
(Penso que talvez se tivesse virado para a esquerda ao invés da direita, nesta noite estaria desabotoando rosas brancas, exausta pelo dia custar a passar e vir a nova manhã para que eu possa desabotoar mais rosas brancas. Talvez fosse uma rapariga qualquer cujos sonhos estariam no próximo folhetim que ainda não foi impresso. Ou ainda, talvez tivesse conquistado o sono profundo, o sono dos que conseguem esquivar-se da vareta zonza cambaleando durante o dia).
Mas eu só penso. Por agora apenas preciso vencer o dilema entre o sono e a preguiça de dormir. E nada mais. O resto vem amanhã (e se tudo der certo, depois do café).
[O delírio é quem elogia]
Pois bem, revivendo a história, não há lacuna alguma. Tenho na metade cheia o sono e na metade vazia a preguiça de dormir. Ou vice-versa. Seja isto ou aquilo, eu tenho algo esta noite.
[O delírio é quem sente]
Eu não tenho nada esta noite - tenho metades vazias e cheias que se anulam e não formam nem isto e nem aquilo. Um todo festivo e sem graça de trapos positivos e negativos que no fim tornam-se incansáveis Neutros.
Neutro? Quem é esse indeciso? Empacoto e o Tédio que venha buscá-lo.
(Penso que talvez se tivesse virado para a esquerda ao invés da direita, nesta noite estaria desabotoando rosas brancas, exausta pelo dia custar a passar e vir a nova manhã para que eu possa desabotoar mais rosas brancas. Talvez fosse uma rapariga qualquer cujos sonhos estariam no próximo folhetim que ainda não foi impresso. Ou ainda, talvez tivesse conquistado o sono profundo, o sono dos que conseguem esquivar-se da vareta zonza cambaleando durante o dia).
Mas eu só penso. Por agora apenas preciso vencer o dilema entre o sono e a preguiça de dormir. E nada mais. O resto vem amanhã (e se tudo der certo, depois do café).
sábado, abril 24, 2010
Amanhecer
(Sinto cosquinhas de luz dourando a minha palidez)
Ai! É o sol, e vem todo todo, grande, sem ser aclamado.
Grita, arde, debruça-se sobre todos os cantos da minha penumbra.
Interrompe.
A face estica os primeiros músculos do dia, involuntariamente,
como o último suspiro escandaloso que lancei noite passada.
As pálpebras, tortuosamente carregadas para cima, esticam (ai, estica mais!)
Com esforço deixo o olho aberto, em conjunto harmonioso com as olheiras-fóssil.
Esse sol, esse sol - Deixa-me!
Os pézinhos alcançam o chão, estão gelados (a meia perdeu-se na cama)
Caminham, um após o outro, em direção ao sol maior
Cega, como cega! Os dedos encolhem,
os músculos faciais deformam-se,
eu sei, já é hora de partir.
E vai, a fumaça de fora inflama o meu seio,
a buzina do fracasso soa como tortura sobre a pleura,
os primeiros barulhos do dia entram por um ouvido,
perdem-se no labirinto da cóclea, e por ali ficam
vagando, vagando, imitando a minha velha forma de adoecer ao fim do dia.
Faróis da minha enfermidade, deixa-me dourar a noite!
Que as estrelas não machucam, não brincam de esconder com meus alvéolos.
(Ai, as estrelas imitam o suspiro da alma,
refletem com mais força o sopro doce que pintei outrora!)
Faróis, faróis de todos os saberes!
Não tragam-me o dia, porque nem sequer
descansei as águas durante a noite.
- Nem sequer...
(A noite é cúmplice do prurido amargo deste teatro mal representado.
Do balcão, suspirei três vezes forçando todo o ar do mundo para a luz das minhas entranhas
e ao amanhecer, ainda estou conversando com os meus Mestres,
monólogo de um gigante vencido,
diálogos cheirando a velhas páginas que eu nem sei mais o que dizem).
Como ousas, como ousa interromper-me assim?
Passo a noite revivendo lembranças, uma a uma,
e nem dou conta de que elas são como as estrelas,
brilham a luz sem nem sequer existirem mais
(mas isso todo mundo já está cansado de saber, assim como eu sei de mim, tão pouco).
Ai, a lua! Prateia, sempre refletindo no espelho a fausta sobranceria da minha expressão.
Mas o sol, o sol... laborioso, mostrando-me com tanta evidência essa monstruosidade falada,
que ao refletir minha diminuta matéria ao espelho,
evidencia cada poro da minha forma de amar e odiar todas as coisas.
Já não quero olhar, não quero saber, não quero entender.
Liberte-me, dia! Não vês que cada partícula de luz é maior do que fiz a vida inteira?
Não vês que ao dourar-me, doura também aquilo que eu tento esconder?
Vai, te vás! E não volte, tão cedo, não volte, nem tão tarde...
Ao menos, entre os negros grãos da noite, quando falta o luar,
consigo fazer-me inexistente, manchando entre as sombras o que realmente sou.
Se caminho pelas ruas, vou como fantasma escarrado ao mundo,
e conto aos cem anjos da minha falácia que essa é a minha moldura mais real.
(Fico quietinha desabotoando lírios, sem piscar, sem respirar, sem existir).
Espanta os anjos, traz os demônios,
que subitamente penetram na minha face e me dão forma,
e desfiguram o doce timbre da orquestra plebéia que compõe o meu cardíaco.
Bom dia! Coloco a máscara. Existo.
O sorriso já tracejado, nem preciso me esforçar.
Boa noite! Retiro a máscara. Sou eu!
Sou eu. Que coisa! Boa noite.
Ai! É o sol, e vem todo todo, grande, sem ser aclamado.
Grita, arde, debruça-se sobre todos os cantos da minha penumbra.
Interrompe.
A face estica os primeiros músculos do dia, involuntariamente,
como o último suspiro escandaloso que lancei noite passada.
As pálpebras, tortuosamente carregadas para cima, esticam (ai, estica mais!)
Com esforço deixo o olho aberto, em conjunto harmonioso com as olheiras-fóssil.
Esse sol, esse sol - Deixa-me!
Os pézinhos alcançam o chão, estão gelados (a meia perdeu-se na cama)
Caminham, um após o outro, em direção ao sol maior
Cega, como cega! Os dedos encolhem,
os músculos faciais deformam-se,
eu sei, já é hora de partir.
E vai, a fumaça de fora inflama o meu seio,
a buzina do fracasso soa como tortura sobre a pleura,
os primeiros barulhos do dia entram por um ouvido,
perdem-se no labirinto da cóclea, e por ali ficam
vagando, vagando, imitando a minha velha forma de adoecer ao fim do dia.
Faróis da minha enfermidade, deixa-me dourar a noite!
Que as estrelas não machucam, não brincam de esconder com meus alvéolos.
(Ai, as estrelas imitam o suspiro da alma,
refletem com mais força o sopro doce que pintei outrora!)
Faróis, faróis de todos os saberes!
Não tragam-me o dia, porque nem sequer
descansei as águas durante a noite.
- Nem sequer...
(A noite é cúmplice do prurido amargo deste teatro mal representado.
Do balcão, suspirei três vezes forçando todo o ar do mundo para a luz das minhas entranhas
e ao amanhecer, ainda estou conversando com os meus Mestres,
monólogo de um gigante vencido,
diálogos cheirando a velhas páginas que eu nem sei mais o que dizem).
Como ousas, como ousa interromper-me assim?
Passo a noite revivendo lembranças, uma a uma,
e nem dou conta de que elas são como as estrelas,
brilham a luz sem nem sequer existirem mais
(mas isso todo mundo já está cansado de saber, assim como eu sei de mim, tão pouco).
Ai, a lua! Prateia, sempre refletindo no espelho a fausta sobranceria da minha expressão.
Mas o sol, o sol... laborioso, mostrando-me com tanta evidência essa monstruosidade falada,
que ao refletir minha diminuta matéria ao espelho,
evidencia cada poro da minha forma de amar e odiar todas as coisas.
Já não quero olhar, não quero saber, não quero entender.
Liberte-me, dia! Não vês que cada partícula de luz é maior do que fiz a vida inteira?
Não vês que ao dourar-me, doura também aquilo que eu tento esconder?
Vai, te vás! E não volte, tão cedo, não volte, nem tão tarde...
Ao menos, entre os negros grãos da noite, quando falta o luar,
consigo fazer-me inexistente, manchando entre as sombras o que realmente sou.
Se caminho pelas ruas, vou como fantasma escarrado ao mundo,
e conto aos cem anjos da minha falácia que essa é a minha moldura mais real.
(Fico quietinha desabotoando lírios, sem piscar, sem respirar, sem existir).
Espanta os anjos, traz os demônios,
que subitamente penetram na minha face e me dão forma,
e desfiguram o doce timbre da orquestra plebéia que compõe o meu cardíaco.
Bom dia! Coloco a máscara. Existo.
O sorriso já tracejado, nem preciso me esforçar.
Boa noite! Retiro a máscara. Sou eu!
Sou eu. Que coisa! Boa noite.
segunda-feira, abril 12, 2010
Trapo
No meio da noite, quando sem pudor invejava o sono das estrelas, abri a janela e encontrei um moribundo dormindo em meu território.
- Xô, xô moribundo!
Ele riu-se todo ao tentar discernir se os meus olhos estavam apavorados por encontrá-lo ali ou por terem revelado a minha moléstia. - Ao menos posso dormir, disse-me.
Vexei-me e tentei contornar. - Eu posso sonhar.
- Ora, ora. Eu posso dormir e sonhar, acordar e continuar sonhando.
Fechei a janela apavorada por terem me descoberto.
Céus! Éramos dois moribundos, com a única diferença de que ele estava de um lado da parede, e eu, do outro.
- Xô, xô moribundo!
Ele riu-se todo ao tentar discernir se os meus olhos estavam apavorados por encontrá-lo ali ou por terem revelado a minha moléstia. - Ao menos posso dormir, disse-me.
Vexei-me e tentei contornar. - Eu posso sonhar.
- Ora, ora. Eu posso dormir e sonhar, acordar e continuar sonhando.
Fechei a janela apavorada por terem me descoberto.
Céus! Éramos dois moribundos, com a única diferença de que ele estava de um lado da parede, e eu, do outro.
Passarela
Eu quero fugir para o alto da colina e ver os extremos do mundo por meio de binóculos baratos.
quinta-feira, abril 08, 2010
Monossílaba
Acordei do meu sono profundo. Abri a janela.
- Ah! Quanta besteira!
Cerrei as pálpebras e conquistei o mundo inteiro antes de levantar da cama.
- Ah! Quanta besteira!
Cerrei as pálpebras e conquistei o mundo inteiro antes de levantar da cama.
terça-feira, março 30, 2010
Saudade
Pergunto-me quantos pedaços partidos no mundo já escreveram sobre a saudade. Cem, duzentos, milhões, bilhões? Talvez eu me arrisque a dizer que todas as pessoas do mundo, as quais vivam tempo suficiente para chorar memórias, um dia escreverão sobre a saudade. Não precisa ser em composições pontuadas e românticas; cansadas e tristes. Um rabisco no último papel da agenda, um traço preguiçoso no papel de pão. Para os iletrados, uma ilustração escoltada no bolso.
Hoje eu serei uma entre todas as pessoas no mundo, que de acordo com a minha estatística vil, um dia escreverão sobre a saudade. Já nem sei quantas vezes em minha vida desenhei letras, números, rabiscos e até chifres destinados a traduzir a lacuna entre os dois hemisférios de mim: ontem e amanhã. Mas sei que quando ponho-me a escrever é porque deixei de fingir e acordei-me para dentro.
Que longe está a primavera.
- Ah, que saudade!
Hoje eu serei uma entre todas as pessoas no mundo, que de acordo com a minha estatística vil, um dia escreverão sobre a saudade. Já nem sei quantas vezes em minha vida desenhei letras, números, rabiscos e até chifres destinados a traduzir a lacuna entre os dois hemisférios de mim: ontem e amanhã. Mas sei que quando ponho-me a escrever é porque deixei de fingir e acordei-me para dentro.
Que longe está a primavera.
- Ah, que saudade!
sexta-feira, setembro 25, 2009
Procuro ciência e poesia
Ai da minha alma. Estou emburrecendo.
Se me permitirem (e aguentarem), posso passar horas proseando a respeito de aspectos moleculares da ciência. Posso escrever, descrever e transcrever as diminutas características da tal-proteína-que-não-serve-pra-nada. Posso calcular estatísticas, engrandecê-las em gráficos e enfeitar números com toda a significância que estes têm por direito. Posso tagarelar para uma multidão (sem corar a face) sobre teorias, controvérsias e coisas que todos os livros incansavelmente dizem.
Mas não posso escrever. Não posso mais fechar os olhos e deixar os dedos escorregarem para o mundo, entregando as minhas fraquezas e sensações. Não posso mais corar a face e sentir que o sangue está contrastando docemente a minha vergonha. Não posso porque já não sei. Já não sei transformar as minhas euforias e respirações em um conjunto de palavras dinâmicas. Tudo fica como uma tradução literal, e perde-se na primeira tentativa de metáfora. Pergunto-me cem vezes se a crase está no lugar correto, se os neologismos são pertinentes, obviamente porque todos os livros que comprei nos últimos meses ainda repousam na prateleira (empoeirada).
Porque não consigo transformar o silêncio em gráfico, não posso calcular o desvio-padrão das minhas freqüências de gritos, não posso achar a proteína que me faz amar todas as coisas (e odiá-las também). E depois dizem que o amor é ridículo e que todas as cartas de amor são ridículas. Mas isso seria o quê?
Quanto mais eu sei, mais emburreço. Que saudade de quando a minha alma-mente (ainda não distinguiveis) vagavam livremente sem tropeçar nas minúsculas questões que nada compõem. Mesmo que de um jeito amador, os impulsos da minha mente estavam em repouso o bastante para que os pulsos do meu cardíaco pudessem ser ouvidos. Eu pensava com o coração, e sentia com o cérebro. Agora, que sentido tem esse dueto se a recíproca não vale?
Definitivamente, estou emburrecendo. Os mais desprovidos são os que não conseguem ser plenos, os que não conseguem traduzir para si mesmos o que significa cada espectro de coloração nos olhos. Não é preciso talento ou noção de gramática para isso. É preciso apenas Ser - e nada ser.
Se me permitirem (e aguentarem), posso passar horas proseando a respeito de aspectos moleculares da ciência. Posso escrever, descrever e transcrever as diminutas características da tal-proteína-que-não-serve-pra-nada. Posso calcular estatísticas, engrandecê-las em gráficos e enfeitar números com toda a significância que estes têm por direito. Posso tagarelar para uma multidão (sem corar a face) sobre teorias, controvérsias e coisas que todos os livros incansavelmente dizem.
Mas não posso escrever. Não posso mais fechar os olhos e deixar os dedos escorregarem para o mundo, entregando as minhas fraquezas e sensações. Não posso mais corar a face e sentir que o sangue está contrastando docemente a minha vergonha. Não posso porque já não sei. Já não sei transformar as minhas euforias e respirações em um conjunto de palavras dinâmicas. Tudo fica como uma tradução literal, e perde-se na primeira tentativa de metáfora. Pergunto-me cem vezes se a crase está no lugar correto, se os neologismos são pertinentes, obviamente porque todos os livros que comprei nos últimos meses ainda repousam na prateleira (empoeirada).
Porque não consigo transformar o silêncio em gráfico, não posso calcular o desvio-padrão das minhas freqüências de gritos, não posso achar a proteína que me faz amar todas as coisas (e odiá-las também). E depois dizem que o amor é ridículo e que todas as cartas de amor são ridículas. Mas isso seria o quê?
Quanto mais eu sei, mais emburreço. Que saudade de quando a minha alma-mente (ainda não distinguiveis) vagavam livremente sem tropeçar nas minúsculas questões que nada compõem. Mesmo que de um jeito amador, os impulsos da minha mente estavam em repouso o bastante para que os pulsos do meu cardíaco pudessem ser ouvidos. Eu pensava com o coração, e sentia com o cérebro. Agora, que sentido tem esse dueto se a recíproca não vale?
Definitivamente, estou emburrecendo. Os mais desprovidos são os que não conseguem ser plenos, os que não conseguem traduzir para si mesmos o que significa cada espectro de coloração nos olhos. Não é preciso talento ou noção de gramática para isso. É preciso apenas Ser - e nada ser.
terça-feira, junho 16, 2009
Poema pela metade
Sonho, vida ou morte?
Nesta modorra mal acabada
tudo é sonho, vida e morte.
Porque ninguém sabe se um mundo
pela metade está vazio ou cheio.
Recordo-me de outra vida
que tudo acaba na hora em que começa-se a conhecer.
Conhece-se pela metade.
Sonha-se pela metade.
Morre-se por inteiro. Que coisa!
Dizem que a vida vaga e sempre pára
no pior lugar da locomotiva
(tem-se que fazer a viagem toda
no pior lugar da locomotiva).
Assim não há sonho que nasça por inteiro;
não há vida que chegue até a estação dos lúcidos
por inteira.
Que pressa!
Não há uma anedota contada fielmente por inteira
(desde a parte em que o riso é esticado educadamente
até aquela em que é possível arrancá-lo dos olhos sem pudor).
Estou cansado.
E a locomotiva lança ao mundo
seus ruídos custosamente murmurados,
carregando vidas que morreram pela metade.
Uma parte cá, exibindo entranhas (mal) coradas
pelo tempo;
Outra maioria lá, perdida em sonhos
que adormeceram preguiçosamente
pela metade.
Não sei.
Outrora me disseram que um poema por inteiro
tagarela sobre o amor.
Mas alguém já amou pela metade?
Nesta modorra mal acabada
tudo é sonho, vida e morte.
Porque ninguém sabe se um mundo
pela metade está vazio ou cheio.
Recordo-me de outra vida
que tudo acaba na hora em que começa-se a conhecer.
Conhece-se pela metade.
Sonha-se pela metade.
Morre-se por inteiro. Que coisa!
Dizem que a vida vaga e sempre pára
no pior lugar da locomotiva
(tem-se que fazer a viagem toda
no pior lugar da locomotiva).
Assim não há sonho que nasça por inteiro;
não há vida que chegue até a estação dos lúcidos
por inteira.
Que pressa!
Não há uma anedota contada fielmente por inteira
(desde a parte em que o riso é esticado educadamente
até aquela em que é possível arrancá-lo dos olhos sem pudor).
Estou cansado.
E a locomotiva lança ao mundo
seus ruídos custosamente murmurados,
carregando vidas que morreram pela metade.
Uma parte cá, exibindo entranhas (mal) coradas
pelo tempo;
Outra maioria lá, perdida em sonhos
que adormeceram preguiçosamente
pela metade.
Não sei.
Outrora me disseram que um poema por inteiro
tagarela sobre o amor.
Mas alguém já amou pela metade?
domingo, março 08, 2009
Extremismo
Gostaria, mas não tenho suspiros a alfabetizar.
Expiro (e indiferentes são as faces destes colóquios que, custosamente, tagarelam com meus cantos tão ociosamente tracejados).
E justifico: Não quero olho nenhum vislumbrando a minha imperfeição.
E desculpo: Tal indolência não se explica pelo romântico devaneio do Ser - o receio de encontrarem em mim mais do que tolero. Apenas assumo, de prontidão, a minha preguiça em devolver a mesma dedicação que me foi lançada (considero um olhar um pouco mais enfeitado, seja destinado ao bem ou ao mal, como uma grande dedicação, a qual eu não me responsabilizo a compartilhar). Não agradeço, nem omito. Meus olhos têm sido dois portais que desmerecem a garganta e o pulmão.
(Mas de onde vem o ódio se não do breve desejo de amar?)
E tendenciono: Antes entregar-se à ira do que ter que desfilar com olhos estéreis, definhados pelo meio-termo paralítico: nem tão doce, nem tão amargo.
E arrisco-me: Prefiro o doce quimérico, o amargo insuportável, à fastidiosa mistura de tudo (ao menos assim mantenho o paladar persuadido).
Entre isso e aquilo, escolho sentir irracionalmente, escolho a plenitude efêmera de todos os extremos.
Expiro (e indiferentes são as faces destes colóquios que, custosamente, tagarelam com meus cantos tão ociosamente tracejados).
E justifico: Não quero olho nenhum vislumbrando a minha imperfeição.
E desculpo: Tal indolência não se explica pelo romântico devaneio do Ser - o receio de encontrarem em mim mais do que tolero. Apenas assumo, de prontidão, a minha preguiça em devolver a mesma dedicação que me foi lançada (considero um olhar um pouco mais enfeitado, seja destinado ao bem ou ao mal, como uma grande dedicação, a qual eu não me responsabilizo a compartilhar). Não agradeço, nem omito. Meus olhos têm sido dois portais que desmerecem a garganta e o pulmão.
(Mas de onde vem o ódio se não do breve desejo de amar?)
E tendenciono: Antes entregar-se à ira do que ter que desfilar com olhos estéreis, definhados pelo meio-termo paralítico: nem tão doce, nem tão amargo.
E arrisco-me: Prefiro o doce quimérico, o amargo insuportável, à fastidiosa mistura de tudo (ao menos assim mantenho o paladar persuadido).
Entre isso e aquilo, escolho sentir irracionalmente, escolho a plenitude efêmera de todos os extremos.
segunda-feira, setembro 29, 2008
Descontentamento
Noite passada adormeci exausta, flutuando entre um sonho cansado e uma realidade pouco paupável. Nenhuma novidade. Todos os sonhadores são exaustos. Os únicos que não sonham são os que já descansam as quimeras de uma vida inteira. São os mortos. Os vivos, mesmo que fazendo a cruzadinha enquanto acomodados sobre o vaso sanitário, sonham (os gordos com o fim de tarde na padaria, os pobres com a casa própria, os ricos com centenas de casas próprias, os pensadores com o silêncio, o desocupado com a próxima novela, o poeta com a libertação, o religioso com a vida pós-morte, [...] ).
E assim começa a mesma história de dois olhos cegos, um pulmão elástico, o suspiro de um vencido que ainda não se convenceu.
Amanhece. Que hei de encontrar? Um campo de trigo remexendo-se graciosamente ao vento, um príncipe em seu cavalo da coorte, borboletas esnobes contrastando suas cores com tulipas e lírios? Fadas da minha imaginação, da onde vêm esses desejos? Nascemos, e a primeira imagem perante nós é um mundo de ponta cabeças, quando segurados pelos pés no hospital. O primeiro som é o próprio berro que atropela os tímpanos, perde-se na cóclea e soma-se ao próximo esperneio. Depois, a face de todos os humanos conhecidos da família aparece perante o berço. Narizes de impetuosos tamanhos, olhos gigantes devoradores, dedos primatas apertando as bochechas e bocas soprando dicções estranhas. Crescemos, e o cenário de beleza desconhecida não muda muito. Ao invés do campo de trigo, há o asfalto seco. Ao invés do príncipe, há o maltrapilho. Ao invés de borboletas coloridas, há maripozas cinzas. Com o passar dos anos, a surdez, as dores nos trapos, o tom inválido do mundo.
E apesar de tudo isso, ao fechar os olhos, ainda sonhamos com os mesmos campos, príncipes e borboletas. Passamos o dia em uma realidade que não nos pertence, possuímos o mundo inteiro antes de levantar da cama (mas, se me permitem a metáfora desataviada e amadora, ao pegar o ônibus todas as manhãs noto que somos todos os mesmos macacos pendurados - com uma breve luzinha fosca querendo crescer nos olhos).
De onde vem toda essa perfeição inexistente?
De onde vem toda essa vida não vivida?
Há um sonho melhor que o do outro? Há um sonho mais valioso que outro? Quanto? Pode pagar por ele (em dinheiro ou vida vivida)?
Ai de mim! Quanta audácia! Por quê não o gordo sonhar com a casa própria? O pobre com o fim de tarde na padaria? O poeta com o silêncio? O desocupado com a libertação? O religioso com a próxima novela? O pensador com a vida pós-morte? [...]
Talvez queiramos todos a mesma coisa. Talvez queiramos de tudo um pouco. Há quem não queira nada, mas até mesmo esses querem algo por nada querer. Há quem tudo quer e nada tem. Mas há quem tudo tem e nada quer?
Sempre haverá uma minúcia qualquer fora do lugar. Um riso mal devolvido, uma anedota mal contada. Uma mão esticada contorcendo o rosto ao fim do dia - "Ora, podia ter sido melhor!".
E assim começa a mesma história de dois olhos cegos, um pulmão elástico, o suspiro de um vencido que ainda não se convenceu.
Amanhece. Que hei de encontrar? Um campo de trigo remexendo-se graciosamente ao vento, um príncipe em seu cavalo da coorte, borboletas esnobes contrastando suas cores com tulipas e lírios? Fadas da minha imaginação, da onde vêm esses desejos? Nascemos, e a primeira imagem perante nós é um mundo de ponta cabeças, quando segurados pelos pés no hospital. O primeiro som é o próprio berro que atropela os tímpanos, perde-se na cóclea e soma-se ao próximo esperneio. Depois, a face de todos os humanos conhecidos da família aparece perante o berço. Narizes de impetuosos tamanhos, olhos gigantes devoradores, dedos primatas apertando as bochechas e bocas soprando dicções estranhas. Crescemos, e o cenário de beleza desconhecida não muda muito. Ao invés do campo de trigo, há o asfalto seco. Ao invés do príncipe, há o maltrapilho. Ao invés de borboletas coloridas, há maripozas cinzas. Com o passar dos anos, a surdez, as dores nos trapos, o tom inválido do mundo.
E apesar de tudo isso, ao fechar os olhos, ainda sonhamos com os mesmos campos, príncipes e borboletas. Passamos o dia em uma realidade que não nos pertence, possuímos o mundo inteiro antes de levantar da cama (mas, se me permitem a metáfora desataviada e amadora, ao pegar o ônibus todas as manhãs noto que somos todos os mesmos macacos pendurados - com uma breve luzinha fosca querendo crescer nos olhos).
De onde vem toda essa perfeição inexistente?
De onde vem toda essa vida não vivida?
Há um sonho melhor que o do outro? Há um sonho mais valioso que outro? Quanto? Pode pagar por ele (em dinheiro ou vida vivida)?
Ai de mim! Quanta audácia! Por quê não o gordo sonhar com a casa própria? O pobre com o fim de tarde na padaria? O poeta com o silêncio? O desocupado com a libertação? O religioso com a próxima novela? O pensador com a vida pós-morte? [...]
Talvez queiramos todos a mesma coisa. Talvez queiramos de tudo um pouco. Há quem não queira nada, mas até mesmo esses querem algo por nada querer. Há quem tudo quer e nada tem. Mas há quem tudo tem e nada quer?
Sempre haverá uma minúcia qualquer fora do lugar. Um riso mal devolvido, uma anedota mal contada. Uma mão esticada contorcendo o rosto ao fim do dia - "Ora, podia ter sido melhor!".
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- F., Manoela
- Uma vírgula entre duas frases. O ponto é o limite que eu ultrapasso [...] Nasci para, incansavelmente, complementar o que já concluí.